Artigo

Futebol, racismo e eurocentrismo. Os média portugueses na cobertura do Campeonato Mundial de Futebol na África do Sul

Revista Crítica de Ciências Sociais, Vol. 2012, No. 98, 103-124


Pedro Almeida

Sinopse:


Partindo da ideia de que o futebol constitui um campo privilegiado de acesso ao estudo da realidade social, este artigo explora o papel dos média portugueses na perpetuação dos paradigmas eurocêntricos e racistas a propósito do Campeonato Mundial de Futebol realizado na África do Sul, em 2010. Depois de se analisar criticamente o atual estado do debate teórico sobre racismo e futebol, salientando‑se os limites que têm caracterizado a maior parte dos estudos, discute‑se a forma como os meios de comunicação social têm sido problematizados, relativamente à transmissão do racismo e do eurocentrismo. Ao nível empírico, o artigo centra‑se na análise dos discursos dos média, assentes na exaltação dos ‘descobrimentos’ e nas construções da africanidade, a partir das visões dicotómicas razão versus emoção e razão versus corpo. Deste modo, o futebol constitui não só uma metáfora da sociedade, como também produz, reproduz e reifica determinados valores e normas sociais, contribuindo assim para a consolidação do paradigma eurocêntrico e racista.

Texto completo:


Introdução

1O objetivo deste trabalho é analisar a forma como os média portugueses produziram, perpetuaram e reificaram paradigmas eurocêntricos e racistas, no âmbito da cobertura do campeonato mundial realizado na África do Sul, em 2010. Tendo sido o primeiro evento do género realizado no Continente Africano, desde cedo se assistiu a um discurso marcadamente eurocêntrico, que iria, ainda que no plano futebolístico, pôr em confronto o ‘moderno’ e o ‘tradicional’, a ‘razão’ e a ‘magia’, ganhando assim nova visibilidade uma forma de discurso fortemente enraizado no colonialismo. Assim, o futebol representa não só um espelho da sociedade, como também produz, reproduz e reifica determinados valores e normas sociais, contribuindo para uma naturalização das identidades culturais.

2Embora o tema principal do trabalho se centre nos discursos dos média, a análise efetuada pretende, igualmente, contribuir para um alargamento do debate teórico nos estudos sobre futebol e sociedade que, de um modo geral, têm abordado a questão do racismo meramente sob uma perspetiva durkheimiana, isto é, como simples reflexo ou espelho das relações sociais, ou sob uma perspetiva historicista, assente na ideia de que o racismo é um fenómeno marginal e residual nas sociedades europeias e, consequentemente, nos estádios de futebol (cf. Back et al., 2001).

3O presente artigo está estruturado em duas partes, combinando teoria e análise do discurso. Na primeira parte, pretende‑se abordar o debate teórico sobre futebol e racismo. Apesar de os estudos sobre racismo no futebol não constituírem ainda um corpo teórico suficientemente consistente sob o ponto de vista crítico, procura‑se analisar o estado atual do debate. Antes de se avançar para a parte empírica sobre a forma como os média reificam o paradigma eurocêntrico no contexto das competições internacionais de futebol, importa perceber de que forma os meios de comunicação social têm sido problematizados, relativamente à transmissão do racismo e do eurocentrismo.

4A componente empírica desenvolve‑se a partir da análise do conteúdo de quatro jornais diários portugueses (três generalistas e um desportivo).1 A análise do discurso é concebida, neste trabalho, não tanto como uma metodologia ou técnica, mas em sim mesma como quadro referencial teórico (Van Dijk, 2005a). Como o racismo e o eurocentrismo tiveram origem no colonialismo e nas questões de poder que daí advieram, é fundamental perceber de que forma é que as identidades e interações raciais têm sido construídas no dia a dia. Tendo em consideração o lugar de destaque que os média ocupam nas sociedades contemporâneas, nomeadamente no reforço do racismo (Van Dijk, 2005b), a segunda parte do artigo incidirá na análise dos discursos da imprensa escrita portuguesa, produzidos no quadro da competição de futebol mais relevante a nível mundial.

1. Futebol, racismo e violência

5As primeiras investigações que abordaram a questão do racismo no contexto do futebol surgiram na década de 1980 motivadas, em larga medida, pelo aumento do número de jogadores provenientes das antigas colónias. De um modo geral, desde essa altura até à atualidade, o racismo tem sido atribuído a grupos específicos de adeptos que, de uma forma mais ou menos organizada, veem nos estádios uma arena privilegiada para expressar as suas ideologias (Testa e Armstrong, 2010; Poulton, 2002; Chaudhary, 2002).

6A abordagem teórica que inaugurou os estudos sobre futebol e sociedade, desenvolvida pelo sociólogo marxista Ian Taylor, elucida o modo como o racismo tem sido teorizado. Encarando o hooliganismo,2como um movimento de resistência das classes trabalhadoras face ao ‘emburguesamento’ do futebol, Taylor (1982) projeta nos hooligans um conjunto de ‘comportamentos antissociais’, entre os se quais se destacam a violência, a agressividade e o racismo. Importa aqui salientar que o racismo é problematizado como uma das características dos hooligans, dos ultras3 ou de outros grupos de adeptos organizados. É esse o sentido das palavras de Sugden a propósito das deslocações dos hooligans ingleses à Europa continental:

Os rapazes não chegam a este carnaval de uma forma neutral. Vêm dominados com ideais de masculinidade e de identidade nacional e por ideologias que são racistas, sexistas, etnocêntricas e xenófobas. (2002: 105)

7Transmite‑se, portanto, a ideia de que o ‘nacionalismo exacerbado’ constitui um fenómeno exclusivo de determinadas subculturas de adeptos, que contrastariam com aquilo a que se poderia chamar de ‘patriotismo saudável’, que caracterizaria a esmagadora maioria dos seguidores de futebol. Por outras palavras, é como se o ‘racismo real’ subsistisse apenas na extrema‑direita (Van Dijk, 2005b: 34). Contrariando este tipo de pressupostos, pode‑se argumentar que o racismo tem acompanhado a história da Europa, constituindo‑se numa característica endémica do nacionalismo europeu. Assim, o racismo, apesar de pouco discutido na teoria social, encontra‑se profundamente ancorado e institucionalizado na cultura ocidental (Hesse, 2004).

8Um dos grupos que mais se tem destacado na abordagem teórica da violência no futebol reúne um conjunto de sociólogos da Universidade de Leicester. A denominada ‘escola de Leicester’ tem abordado a forma como a ‘masculinidade agressiva’, produzida e reproduzida nos bairros periféricos da cidade, se manifesta nos estádios de futebol. Tendo como suporte teórico as teses de Norbert Elias, os investigadores argumentam que a violência é produto dos setores mais ‘rudes’ das classes trabalhadoras, dentro das quais subsistiriam valores que exaltam a masculinidade, a agressividade e a defesa do território (Dunning, 1994; 2009; Dunning et al., 1992; 1994). O argumento dos sociólogos de Leicester tem sido frequentemente objeto de crítica, mais concretamente devido à generalização do funcionamento social, cultural e afetivo das classes trabalhadoras. De facto, o tipo de pressupostos que têm orientado as pesquisas do grupo de Leicester parece evidenciar um forte menosprezo pelas classes trabalhadoras (Bodin, 2003).

9No entanto, este artigo não pretende analisar as fragilidades e potencialidades das várias teorias desenvolvidas para explicar a violência no futebol. O que se procura salientar, neste ponto, é que de um modo ou de outro, a maioria das abordagens teóricas acabam por cair num certo reducionismo, no sentido em que delegam para um ‘outro’ as atitudes e posturas violentas, agressivas e racistas. O racismo no futebol tornou‑se, assim, para a ‘escola de Leicester’ e para a generalidade da literatura académica, uma espécie de extensão dos comportamentos antissociais de grupos específicos de adeptos. No entanto é importante salientar, a este propósito, o facto de algumas das atitudes ‘extremistas’ atribuídas a determinados grupos colherem, igualmente, alguma simpatia em muitos outros adeptos tidos como ‘tradicionais’ e ‘pacíficos’ (Almeida, 2006). Apesar disso, a generalidade dos estudos académicos tende a negligenciar essas manifestações que não têm os hooligans como principais atores ou a atribuí‑las a atos de indivíduos isolados.

10Nos trabalhos publicados sobre as culturas de adeptos da Europa do Sul, o racismo também surge como sendo algo praticamente exclusivo dos grupos ultra. Por exemplo, as manifestações abertamente racistas, através dos cânticos vindos das bancadas, têm feito parte da rotina do campeonato italiano de futebol. Tal como no Reino Unido, também em Itália o processo de demonização de determinados grupos é bem visível. As palavras de Podadiri e Balestri são elucidativas:

Enfrentar o problema do racismo nos estádios italianos obriga‑nos a olhar para a história do apoio da curva (ou apoio ultra, tradicionalmente localizado na curva dos estádios) e consequentemente perceber, quer as dinâmicas que possibilitam a expansão do racismo e da extrema‑direita, quer as intervenções estratégicas que atualmente procuram perceber a raiz deste fenómeno. (1998: 88)

11Nesta linha de pensamento, tem sido enfatizado que o recrudescimento de grupos fascistas nos estádios de futebol se encontra intimamente relacionado com os sentimentos separatistas do norte de Itália que ganharam visibilidade a partir da década de 1980 (Testa e Armstrong, 2010; Giulianotti, 2002). O caso espanhol também tem merecido alguma atenção, já que a maioria dos grupos organizados de adeptos evidencia uma retórica nacionalista e racista (Spaaij e Viñas, 2005; Duke e Crolley, 1996). Por outro lado, o surgimento de grupos que se autointitulam de esquerda encontra‑se fortemente relacionado com a afirmação de identidades regionais, como é o caso do País Basco ou da Galiza. Não se poderá afirmar, com toda a clareza, que estes aficionados sejam ativamente antirracistas. Todavia, tendo em consideração que a lógica do futebol é orientada para a rivalidade e antagonismo, muitos destes adeptos reproduzem nos estádios uma retórica progressista, antirracista e de esquerda como forma de marcar a sua oposição aos grupos que, de algum modo, representam a identidade nacional espanhola (Almeida, 2006).

12As abordagens teóricas no contexto português sobre futebol e sociedade têm ocupado um lugar marginal nas ciências sociais. Com exceção feita a um conjunto restrito de investigadores, não se tem evidenciado uma grande preocupação em explorar este fenómeno social. De entre os estudos publicados, destacam‑se claramente os trabalhos da autoria de Salomé Marivoet (1989; 2002; 2006; 2009). À semelhança de outras publicações desenvolvidas em outros contextos geográficos e culturais, um dos tópicos consistentemente abordados pela autora tem sido a questão da violência associada ao futebol, com especial atenção aos processos de construção identitária dos ultras que compõem as ‘claques’ portuguesas. No seio destes grupos, portugueses e estrangeiros, tem sido notada a presença de elementos de extrema‑direita que tendem a eleger as competições internacionais de futebol como um palco de afirmação nacionalista e de intolerância face ao ‘outro’ (Marivoet, 2006: 71). Neste sentido, a presença do racismo e do nacionalismo exacerbado no contexto do futebol português tem sido associada a determinadas subculturas de adeptos.

13Algumas das publicações sobre os ultras da Europa do Sul, ao incidirem numa análise histórica acerca da formação e das particularidades culturais desses grupos, contribuíram, sem dúvida, para o enriquecimento da pesquisa académica na área dos estudos sobre futebol e sociedade. No entanto, a análise teórica do racismo nos estádios continua a evidenciar limites que impedem o avanço do debate. De facto, não se tem verificado uma grande preocupação em estabelecer uma discussão entre o racismo que se manifesta na arena do futebol europeu e os processos mais amplos que estão diretamente relacionados com o imperialismo e o colonialismo. Assim, para uma compreensão mais abrangente sobre o fenómeno do racismo no futebol, é indispensável relacioná‑lo com os processos que estiveram na base da construção da identidade europeia, nomeadamente a expansão colonial. A propagação e a consolidação das ideias racistas, reforçadas pelo colonialismo e esclavagismo, estão profundamente relacionadas com a construção da ideia de Europa. Desta forma, o conceito internacional de racismo encontra‑se duplamente vinculado à revelação das suas marcas no nacionalismo e à ocultação da sua ancoragem no liberalismo (Hesse, 2004: 9).

14Numa tentativa de ultrapassar algumas destas limitações teóricas, um grupo de investigadores tem procurado repensar a forma como o racismo tem sido abordado nos estudos académicos. Demarcando‑se do ativismo moral que tem caracterizado quer a maioria dos estudos, quer a ação de várias organizações antirracistas,4 as perspetivas críticas da autoria de Les Back, Tim Crabbe e John Solomos (2001) trouxeram um enriquecimento teórico ao debate, ao colocarem em destaque os vastos e complexos processos racistas que ocorrem no contexto do futebol. Segundo os autores, a abordagem do racismo como um mero elemento constituinte de um vasto campo de ‘comportamentos antissociais’ tem resultado num empobrecimento do debate académico. Para além disso, a ausência de uma discussão mais alargada que inclua outras contribuições críticas nos estudos sobre raça, racismo e teoria social, representa uma limitação teórica que ainda não foi ultrapassada (Back et al., 2001: 33). Apesar de terem trazido para a discussão algumas perspetivas críticas que não se encontravam em outros estudos, continuam a existir lacunas teóricas que impedem verdadeiramente o estabelecimento de novas visões críticas. De facto, a falta de preocupação em destacar a importância dos processos coloniais, que tem marcado a esmagadora maioria dos estudos sobre racismo no futebol, é igualmente visível no trabalho destes investigadores. Tal como se procurou demonstrar, o racismo não constitui um campo verdadeiramente autónomo nos estudos sobre futebol e sociedade, sendo antes problematizado como uma ramificação das investigações sobre violência nos estádios.

15Assumindo que o racismo é uma característica intrínseca às sociedades ocidentais que se manifesta no dia a dia, nos mais diferentes contextos, não seria plausível supor‑se que o futebol, enquanto arena social, estaria imune a essa matriz. Assim, mais importante do que perceber que tipo de manifestações racistas ocorrem no contexto do futebol é elucidar os processos que estão por detrás dessas perspetivas e que têm legitimado o racismo e o eurocentrismo, ao mesmo tempo que se continuam a veicular visões que assentam numa normalização da brancura.Esta racialização5 que ocorre na cultura do futebol – e que se pretende focar neste trabalho – tem estado intimamente ligada quer a noções biológicas, quer a noções culturais que têm estado na base da legitimação dos processos de hierarquização racial. A validação de visões explícita ou implicitamente racistas tem tido, entre outros, os média como veículos privilegiados. Nesse sentido, têm sido publicados vários trabalhos académicos que procuram destacar a forma como os média constituem um palco privilegiado na perpetuação de visões ideologicamente racistas e eurocêntricas. É, precisamente, a abordagem dessa discussão que se propõe no ponto seguinte.

2. Média, eurocentrismo e racismo

16O racismo, enquanto fenómeno político que estrutura as relações de poder, foi despoletado com a expansão colonial europeia. Desde essa altura, a consolidação da Europa, enquanto projeto político e identitário, tem sido reproduzida através de várias formas, assentes em categorias ontológicas que distinguem entre ‘nós’ e ‘eles’, sustentadas na ideia de superioridade versus inferioridade (Hesse, 2004). Tem sido enfatizado que o racismo constitui um elemento fundamental em todo o processo de construção histórica e cultural da própria Europa (Fanon, 2008). A perpetuação e consolidação do racismo tem encontrado nos média um veículo privilegiado. Efetivamente, os média têm desempenhado um papel decisivo na institucionalização do racismo, constituindo‑se, aliás, numa das principais fontes de crenças racistas (Van Dijk, 2005b; 2007). A fragmentação social e a quebra das relações interpessoais quotidianas têm vindo a intensificar‑se nas últimas décadas, especialmente nas sociedades ocidentais (Putman, 2001). Neste contexto, grande parte da informação processada pelos indivíduos provém, essencialmente, do discurso e da comunicação (Van Dijk, 1989). Ou seja, as interações entre indivíduos de diferentes grupos étnicos são substituídas, em boa medida, pelos média, que funcionam assim como ‘mediadores culturais’.6 Tendo em consideração que o racismo explícito tem passado para a esfera do ‘politicamente incorreto’, parte dos discursos produzidos nos média têm sido mais subtis e simbólicos no modo como constroem imagens do ‘outro’. Dito por outras palavras, o conteúdo das notícias deixou de ser claro e transparente, passando a constituir um campo mais complexo e difícil de analisar. O chamado ‘novo racismo’, ao pretender ser mais democrático, demarca‑se do ‘velho racismo’, procurando simultaneamente esvaziar e descredibilizar o discurso antirracista (Van Dijk, 2005b e 2007). Assim, ao deixar pouca margem de manobra àqueles que se opõem às novas formas de racismo, estão reunidas as condições necessárias para o estabelecimento de um discurso hegemónico e que legitima a dominação de determinados grupos sobre outros.

17Porém, o tratamento destas questões exige uma abordagem mais ampla. Com efeito, uma das especificidades que caracteriza as sociedades ocidentais é a negação do racismo como fenómeno político estruturante da história dos Estados‑Nação (Van Dijk, 2005b; Hesse, 2004; Araújo e Maeso, 2012; Lentin, 2008). Não obstante, a institucionalização do racismo em organismos públicos tem sido evidenciada em vários contextos (Keith, 1993). Outra particularidade diz respeito ao silenciamento do debate racial, muitas vezes associado ao fenómeno do holocausto, como se este tivesse significado a ‘implosão do racismo’ (Goldberg, 2009: 154). Efetivamente, as sociedades liberais ocidentais têm vindo, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a insistir na ideia de que o racismo é um resíduo, uma conduta moral inaceitável, uma patologia que não se coaduna com o seu ethos democrático (Hesse, 2004: 10). Deste modo, o discurso dominante no Ocidente passou, nos últimos trinta anos, pela enfatização da ‘tolerância’ como característica intrínseca da civilização europeia e norte‑americana, por oposição às outras (Brown, 2004). Neste contexto, tem‑se vindo a difundir uma imagem cosmopolita das sociedades ocidentais que contrastaria, por exemplo, com o chamado ‘mundo islâmico’. É neste sentido que vão as palavras de Brown quando afirma:

A tolerância emerge, assim, como parte de um discurso civilizacional que identifica a tolerância e o tolerável com o Ocidente, rotulando as práticas e as sociedades não liberais como candidatas a um barbarismo intolerável que é assinalado pela suposta intolerância que governa estas sociedades. (2006: 6)

18É importante salientar que não são só os média que reproduzem visões estereotipadas dos povos não‑europeus. A normalização do paradigma eurocêntrico e racista também ecoa em outros meios, tais como o académico ou o político. Com efeito, a banalização trivial deste tipo de discurso constitui‑se numa prática social, levada a cabo por diversos grupos sociais que, independentemente do papel que desempenham em diferentes contextos, perpetuam visões distorcidas da realidade. O campo da educação e do ensino constitui exemplo elucidativo em relação ao modo como o passado colonial tem sido naturalizado e legitimado (Araújo e Maeso, 2012). Assim, ao mesmo tempo que se observa um enaltecimento e uma glorificação dos ‘descobrimentos’ europeus, vai‑se difundindo e consolidando uma visão descontextualizada, estereotipada e negativa do ‘outro’. A este propósito, Van Dijk sustenta a ideia que “as sociedades e as instituições racistas produzem discursos racistas que geram estereótipos e ideologias que são utilizados para defender e legitimar o domínio branco” (2007: 15‑16).

19No contexto do futebol, o eurocentrismo e o racismo continuam a exercer um papel dominante nas sociedades europeias, contribuindo não só para um processo de naturalização, essencialização e inferiorização do ‘outro’, como também para a manutenção de uma relação de poder vincadamente assimétrica e desigual, apesar dos organismos desportivos defenderem o contrário.7 Neste sentido, os média, de uma forma geral, também têm vindo a reforçar estes processos, nomeadamente pela forma como reproduzem as narrativas eurocêntricas dominantes. É o que se procurará evidenciar no ponto seguinte, através da análise dos discursos produzidos pela imprensa escrita portuguesa no contexto do primeiro Campeonato Mundial de Futebol realizado em África.

3. Os média e o Campeonato Mundial de Futebol da África de Sul

20Os grandes eventos desportivos constituem, nas sociedades contemporâneas globalizadas e altamente mediatizadas espaços privilegiados de afirmação das várias identidades que se manifestam no contexto do futebol. Tendo em consideração o papel central que a modalidade ocupa na representação das culturas populares, facilmente se percebe que as competições internacionais de seleções se afigurem como espaços socialmente relevantes e de grande visibilidade. Para além dos interesses financeiros que envolvem a organização e promoção destes torneios, existem outros interesses em jogo. O forte grau de envolvimento dos países organizadores, nomeadamente através dos elevados investimentos realizados, deve ser enquadrado dentro de determinados interesses político‑ideológicos dos Estados modernos (Marivoet, 2006). Neste contexto, e tal como se procurou atrás enfatizar, os média assumem enorme relevância, não só como meios de galvanização das identidades nacionais, mas também como mediadores ou formadores culturais.

21Para a análise do discurso produzido e difundido pelos média a respeito de um desses grandes eventos desportivos – o Campeonato Mundial de Futebol de 2010 – foram selecionados quatro jornais diários: A Bola, o Público, o Jornal de Notícias e o Correio da Manhã, referentes ao período entre o dia 3 de junho e 12 de julho de 2010. Para os objetivos deste trabalho, a análise de conteúdo realizada nos referidos diários centrou‑se em duas dimensões principais, designadamente o enaltecimento e glorificação dos descobrimentos e a construção da africanidade, a partir das dicotomias razão versus emoção e razão versus corpo.

3.1 ‘África Nossa’: enaltecimento e glorificação dos ‘descobrimentos’

22Nos relatos da imprensa, a partida dos jogadores para a África do Sul foi um momento marcante. Na véspera da chegada da comitiva escrevia‑se no principal jornal desportivo português:

A Bola decidiu batizar a Seleção Nacional com o cognome de Navegadores [….] após se saber que um dos jogos seria na cidade do Cabo, o mesmo cabo que fora das tormentas, mas que Bartolomeu Dias transformou em Boa Esperança, a mesma que os portugueses, hoje, passados mais de 500 anos, depositam também na equipa de Portugal. (A Bola, 06.06.2010)

23A exaltação dos ‘feitos’ dos portugueses teve como atores não só os média, mas também diversas personalidades ligadas ao futebol, nomeadamente jornalistas, comentadores, jogadores, dirigentes e equipa técnica. A propósito do epíteto de “Navegadores” atribuído à equipa, o selecionador afirmava, nessa mesma edição do jornal A Bola que “pelo tributo que temos de fazer aos nossos antepassados e à epopeia dos Descobrimentos, penso que Navegadores seria o que melhor se adaptava ao facto de jogarmos na África do Sul, onde dobrámos aquele cabo” (A Bola, 06.06.2010). Um aspeto que importa salientar refere‑se ao facto de este tipo de registo ter sido repetido pelos diferentes jornais, independentemente do facto de serem desportivos ou generalistas. Por exemplo, no dia em que a comitiva portuguesa viajou para a África do Sul escreveu‑se no jornal Público:

No século XV os portugueses foram os primeiros a atingir o sul da África […] Hoje, a viagem da seleção portuguesa de futebol será mais rápida, mais direta e igualmente interesseira. Conquistar o Mundial (ou algo parecido) e voltar. (Público, 06.06.2010)

24A chegada a Magaliesburg, localidade onde a seleção portuguesa ficou instalada, foi um dos momentos simbólicos da ‘expedição’ a África, tal como veio a ser designada pelos média.8 Dando conta do entusiasmo que a chegada da comitiva provocou nos habitantes locais e nos emigrantes portugueses, escrevia‑se, na capa de A Bola: “África Nossa”. O título era ilustrado com uma foto da multidão e com um mapa do continente africano como pano de fundo.

25A mobilização da narrativa colonial teve, uns dias mais tarde, um dos seus momentos mais efusivos a propósito do jogo que opôs Portugal e a Costa do Marfim. Apelando ao ‘orgulho’ em ser português,9 lia‑se na manchete do jornal A Bola, “Heróis do Mar”, na qual se realçava igualmente um desenho do mapa do Continente, onde se assinalavam as datas relevantes das “descobertas de África”. Nessa mesma edição, destacava‑se uma crónica com o título “As Armas e os Barões Assinalados”. Do seu conteúdo, à semelhança de muitos outros marcado pela exaltação do carácter dos portugueses, sobressaía a ideia de os “Navegadores terem promovido o engrandecimento de Portugal”. Toda esta temática do orgulho do passado nacional foi tratada num artigo deste jornal precisamente no dia seguinte ao jogo Portugal – Brasil. Intitulada “Orgulho e Raiva”, a crónica do editor, escrita num tom inflamado, foi particularmente incisiva na exaltação da História de Portugal.

Na cultura portuguesa, o sentimento patriótico tornou‑se, para a minha geração, num despropositado sinónimo de reacionarismo político. A ideia de Deus, Pátria e Família, como pilares de um regime de poderes discricionários, levou à radicalização dos conceitos e a essa ausência de respeito e de admiração por páginas de ouro da História portuguesa. Às vezes, é preciso andar pelo mundo para entender a grandeza dos portugueses dos quinhentos e a dimensão verdadeiramente universal do seu legado. O que nos provoca orgulho pelo que fomos e raiva pelo que somos. (A Bola, 26.06.2010)

26Para além da recorrente glorificação do passado colonial, há outro aspeto que merece ser destacado e que assenta na ideia do legado universal. O universalismo, enquanto visão que reivindica a existência de verdades absolutas que não variam consoante o espaço e tempo, é uma tradição europeia e constitutiva do pensamento científico (Wallerstein, 1997: 96). Intimamente relacionado com o universalismo europeu, também a ideia de Europa como origem da civilização e do respeito pelos direitos humanos se encontra fortemente presente. Assim, África e os africanos deveriam, na sequência do Campeonato Mundial, “saber aproveitar a mensagem de um futuro de maior desenvolvimento social e de respeito pelos Direitos Humanos” (A Bola, 11.07.2010).

27A convicção de que a Europa é, por excelência, o berço da modernidade encontra‑se inequivocamente relacionada com a ideia de universalismo (Wallerstein, 1997). Neste contexto, é importante salientar que um dos mitos fundadores do eurocentrismo assenta precisamente na ideia da civilização humana como uma trajetória que iria desde o estado natural até à civilização europeia (Quijano, 2000: 542). No entanto, este tipo de pretensões universalistas, além de des‑potenciarem o ‘outro’, acaba por cair numa ‘provincionalização’ da própria Europa (Wallerstein, 1997: 97).

28O imaginário de conquista ou, neste caso, de reconquista e de exaltação do passado colonial (embora o uso do termo ‘colonial’ tenha estado praticamente ausente na generalidade dos média) teve o seu momento apoteótico a propósito do jogo dos oitavos de final da competição, que opôs os “Navegadores” portugueses à “Armada Espanhola”. A ideia de domínio e de disputa simbólica de parte do mundo, sempre presente em diversas publicações, foi particularmente enfatizada pelo Jornal de Notícias no dia do jogo. Elegendo como título da notícia, “Marcharem África” afirmava‑se: “Mais de quinhentos anos depois, o mundo volta a ser disputado por Portugal e Espanha” (Jornal de Notícias, 29.06.2010).

29Uma das primeiras conclusões a destacar é que os média portugueses, através de um discurso caracterizado pelo enaltecimento e a glorificação dos ‘descobrimentos’, contribuem, decisivamente, para a trivialização do próprio colonialismo. Mais do que isso: “apaga‑se” a própria história (Trouillot, 1995).10 Nesse sentido, Araújo e Maeso sublinham que “a legitimidade do colonialismo nunca é questionada” (2012: 1270). Pelo contrário, a mobilização da narrativa colonial, que ganha uma nova visibilidade no caso das grandes competições de futebol, não só perpetua como também fortalece o eurocentrismo enquanto forma de produção de conhecimento. Tal como se procurará demonstrar no ponto seguinte, a consolidação do paradigma eurocêntrico e racista está igualmente relacionada com as representações da africanidade, isto é, com o modo como os europeus constroem e reificam determinados ‘traços culturais’ dos povos africanos.

3.2 A africanidade

30As representações da ‘cultura africana’ foram um tema recorrente nos média portugueses. A cerimónia de abertura do Mundial, que constitui sempre nestas competições um momento simbolicamente importante, marcou o tom do discurso jornalístico:

África mostrou‑se ao Mundo como o Mundo a vê: com danças tribais, interjeições guturais de feiticeiros, alegria esfuziante. Até um escaravelho gigante deu uns toques na jabulani, a bola oficial da competição. (Jornal de Notícias, 12.06.2010)

31O que se pode acrescentar é que o modo como o ‘Mundo vê África’ assenta num conjunto de características culturais supostamente homogéneas e inalteráveis ao longo do tempo, que permitem o estabelecimento de visões estereotipadas sobre os povos africanos. Desta forma, a visibilidade concedida ao ‘outro’ não significa necessariamente o estabelecimento de uma relação assimétrica. Recorrendo à expressão utilizada por Brighenti (2007: 335), “a visibilidade é uma faca de dois gumes”, no sentido em que tanto pode ser um meio de ‘empoderamento’ (empowerment) como também pode significar um ‘desempoderamento’ (disempowerment), na medida em que pode distorcer a realidade e contribuir para perpetuar determinados paradigmas. Ou seja, a visibilidade não é, em si mesma, libertadora (Brighenti, 2007: 340).

32A busca e o fascínio pelo exótico foram igualmente um tema recorrente nas várias publicações analisadas. Por exemplo, numa campanha publicitária de uma marca de vinho à qual o Público se associou via‑se uma série de animais (macacos, elefantes, leões, girafas, zebras) a jogarem futebol. Inserida nesta linha do imaginário africano, destaca‑se uma passagem de uma crónica deste mesmo jornal, igualmente reveladora das representações que os europeus têm de África. Intitulada “O macaco comeu a fruta”, sobressaía a ideia de que “este tem tudo para ser o mundial mais exótico de que há memória” (Público, 02.06. 2010). Este tipo de imagem e de discurso que se insere no imaginário que o Ocidente construiu de uma África selvagem, assente num exoticismo incontornável, territorializa a cultura na medida em que se estabelece uma ligação implícita entre determinadas características culturais dos africanos e as especificidades inerentes ao próprio território que habitam11 (Araújo e Maeso, 2012: 1273). A partir das relações coloniais os europeus criaram um novo processo histórico de redefinição e de reidentificação das novas identidades geoculturais: América, África, Ásia e Oceânia (Quijano, 2000: 540).

33Esta ideia da territorialização da cultura, que foi emblemática na história da antropologia, continua bem presente nas representações contemporâneas da ‘africanidade’. A grande diferença em relação ao passado é que os discursos que se produzem sobre o ‘outro’ abandonaram as referências fenotípicas, passando a privilegiar o uso de expressões como ‘estilo de vida’. Não se trata aqui de negar a existência das diferenças culturais ou defender a pretensa ideia de uma cultura universal. O problema que este tipo de abordagem jornalística ou académica apresenta é que acaba por encarar a diferença cultural como sendo algo imutável, estanque, alimentando a ideia de um anacronismo, isto é, que os ‘outros povos’ se encontram petrificados, a viver um tempo que não é o seu (Araújo e Maeso, 2010 e 2012; Fabian, 1983).

34Outro aspeto que merece ser salientado tem a ver com a análise dos média acerca da performance desportiva das equipas africanas, procurando estabelecer uma relação com determinadas especificidades culturais. Após o jogo inaugural do torneio que opôs a seleção anfitriã ao México e que terminou num empate, o título da crónica do jornal A Bola (do dia 12.06.2010) foi elucidativo: “África é mesmo assim: generosa, pura e ingénua”. O tema da ‘ingenuidade’ e da suposta homogeneidade cultural dos povos africanos foi, uns dias mais tarde, retomado num artigo que tinha como título “Black is beautiful”, onde se abordava o apoio dos sul‑africanos à seleção do Gana, a única equipa africana que ainda estava em competição:

Basta falar com qualquer sul‑africano para se perceber o fervor com que apoiam o Gana, numa cumplicidade rácica e cultural impossível de clonar em qualquer outra parte do mundo, algo que faz parte da generosidade e também da ingenuidade dos africanos. (A Bola, 02.06 2010)

35Num tom menos incisivo, o Público dava conta que o golo do México teria sido o resultado da “imaturidade do futebol sul‑africano” (12.06.2010). Ainda que a maioria dos discursos racistas ou eurocêntricos produzidos sobre o ‘outro’ tendam, nas sociedades contemporâneas, a ser mais subtis e indiretos (Van Dijk, 2007), não se pode deixar de destacar o significado, o sentido e a consequência da escolha de determinado tipo de vocabulário. Mais do que perceber se o golo marcado na parte final do jogo pelo México foi ou não resultado da “imaturidade” dos jogadores sul‑africanos, é importante realçar a relação que se procura estabelecer entre a qualidade das equipas africanas e as suas características culturais do tipo essencialista. A presunção da “generosidade” e da “pureza” africana faz recordar a visão do ‘bom selvagem’ defendida por Rousseau, no século xviii, acerca dos povos indígenas da América. Este tipo de abordagem paternalista, que tem dominado o pensamento europeu, confirma a ideia de que o paradigma eurocêntrico e racista continua a exercer um poder hegemónico em relação a outras narrativas alternativas. Esta ideia encontra‑se intimamente relacionada na forma como as construções dicotómicas razão versus emoção e razão versus corpo têm também sido reproduzidas pelos média. É o que se pretende mostrar no ponto seguinte.

3.3 Razão versus emoção e razão versus corpo

36As crónicas dos jogos que opuseram as seleções africanas a outras equipas elucidam a forma como a visão dicotómica ‘razão’versus ‘emoção’ se encontra fortemente enraizada no pensamento europeu e que ganha uma enorme visibilidade no contexto do futebol. De facto, há todo um conjunto de termos, expressões e analogias que são recorrentes nos média e que interessa aqui analisar. Ainda a respeito do jogo África do Sul ‑ México, realçando as fragilidades da equipa africana, escrevia‑se no Jornal de Notícias (no dia 12.06.2010) que “entre os Bafana‑Bafana destacava‑se apenas o cérebro europeu do meio campo, o talismã Steven Pienaar, joia do Everton, que levava a batuta”. Para um melhor entendimento deste ‘jogo de palavras’ importa esclarecer que os jogadores do meio campo, especialmente aquele que ocupa a parte central, desempenham o papel mais ‘cerebral’, no sentido em que lhe é atribuída a tarefa de organizar o ritmo do jogo. Assim, a escolha do termo “europeu” não deixa de ser reveladora da matriz eurocêntrica que pauta este tipo de discurso.

37As características físicas dos jogadores africanos são, inúmeras vezes, destacadas pelos média. Mais do que isso, há todo um conjunto de relações que se procura estabelecer entre a fisiologia dos atletas e o estilo de jogo que adotam. Na véspera do embate entre a Costa do Marfim e Portugal, podia‑se ler no Jornal de Notícias:

Com ou sem Drogba os africanos têm uma enorme potência física, traduzida na sua explosividade e velocidade. Trabalhados para atacar, abrem enormes brechas defensivas que devemos saber explorar. (Jornal de Notícias, 14.06.2010)

38No entanto, contrariando estas premissas, o jogo terminaria com um empate, desconstruindo os pressupostos acerca das características das equipas africanas:

Afinal a Costa do Marfim não era uma equipa tão africana como se dizia. Aqueles jogadores […] desobedecem a tudo aquilo que é suposto sabermos acerca do futebol africano: possante mas descompensado, veloz mas desarranjado, impetuoso mas pouco pensado. (Jornal de Notícias, 16.06.2010)

39O tom desiludido presente nestas palavras sugere que as representações de África e dos africanos se encontram altamente enraizadas em torno da ideia do corpo. É precisamente essa a mensagem que se transmite. Por oposição, estabelece‑se uma associação implícita entre os europeus e a razão. Este tipo de discurso retórico, a propósito da seleção do Gana, esteve bem presente numa crónica do jornal Público intitulada “Atenção! Aqui reza‑se, canta‑se e prepara‑se o Mundial africano”:

O Gana é uma equipa africana, felina, com jogadores elásticos e excelentes velocistas. Não são os mais ágeis dentro da área contrária, onde lhes falta precisão, mas têm compensado isso com o coração. (Público, 30.06.2010)

40Tal como se constata, as dicotomias razão/emoção e razão/corpo, que se encontram fortemente presentes no pensamento europeu, têm nos média um veículo privilegiado. A associação dos africanos com a ‘magia’, a emotividade, a ‘generosidade’, a ‘alegria esfuziante’ faz parte do imaginário ocidental construído ao longo dos séculos através das relações de poder alicerçadas no esclavagismo e no colonialismo.

41No polo oposto à ‘ingenuidade’ dos africanos, as equipas europeias também são, por vezes, vistas com certas características que se encontram supostamente relacionadas com determinados traços culturais. Exemplo disso foi o título escolhido pelo Correio da Manhã a propósito do jogo Alemanha-Gana: “Frieza germânica em xeque pela magia africana” (23.06.2010). Apesar do seu carácter essencialista, o tipo de discurso e de associações é totalmente antagónico ao que acontece com as equipas africanas. A “frieza”, no contexto do futebol, é vista como uma característica positiva, já que o pragmatismo traduz‑se num jogo taticamente bem elaborado, estruturado, com poucas falhas e normalmente com bons resultados desportivos.12 A ideia principal que se interioriza é que os europeus possuem pensamento, enquanto os outros (especialmente os africanos) desfrutam de cultura. Por exemplo, o estilo de jogo defensivo que se celebrizou nas equipas italianas a partir da década de 1990, denominado cattenacio, nunca foi analisado da mesma forma que o futebol ‘despreocupado’ jogado pelos africanos. O que se pretende salientar é que, neste caso, não se vincula uma questão histórica ou cultural. Por outras palavras, não há uma racialização do ‘jogo à italiana’.Ou seja, contrariamente ao que acontece com as equipas africanas, a questão racial nunca está presente nos discursos dos média sobre as equipas ou seleções europeias.

Considerações finais

42O tipo de abordagem que decorre de toda a história colonial foi sendo consolidado pela tradição filosófica e por todo o discurso intelectual ocidental. Deste modo, o colonialismo, ao produzir um sistema de dominações sociais, antropológicas, raciais e étnicas contribuiu decisivamente para o pressuposto de que essas construções intersubjetivas fossem assumidas como categorias objetivas e científicas. Ou seja, a categorização de populações humanas foi sendo vista como um fenómeno natural e não como algo decorrente da história do poder (Quijano, 2000). Nimako e Glenn (2011) vão mais longe ao enfatizarem o papel fundamental que a escravatura atlântica teve não só na economia mundial, mas principalmente na influência na formação dos Estados modernos. Assim, a construção da africanidade deve ser entendida dentro de um quadro de relações de poder que se estabeleceram com o colonialismo e o esclavagismo e que estiveram na base do nascimento, consolidação e perpetuação do eurocentrismo e do racismo.

43Tendo em consideração que o futebol constitui uma arena de acesso ao estudo da realidade social, torna‑se evidente que o paradigma eurocêntrico e racista continua a ocupar um lugar central nas sociedades europeias. Apesar do debate racial na Europa ter ‘implodido categoricamente’ com o holocausto, o racismo não desapareceu. Pelo contrário, a raça foi “enterrada viva” (Goldberg, 2009: 152). Neste sentido, o racismo e o eurocentrismo que caracterizam as sociedades contemporâneas só podem ser compreendidos se tivermos em consideração que a própria ideia de modernidade europeia foi altamente colonizada pelo discurso racial (Goldberg, 1993: 224). Assim, o fortalecimento de perspetivas críticas sobre o racismo e eurocentrismo envolve, necessariamente, novas análises sobre os processos coloniais, imperiais e esclavagistas. Só a partir daí serão possíveis outras leituras que permitam uma verdadeira compreensão do racismo nas sociedades contemporâneas (Araújo e Maeso, 2010: 258).

44Tal como se procurou evidenciar neste artigo, as narrativas produzidas e reificadas pelos média têm colaborado, igualmente, na consolidação do paradigma eurocêntrico. Efetivamente, a glorificação do passado colonial português, acompanhada pelas narrativas acerca daafricanidade, reproduz e reifica o eurocentrismo. Mais do que isso, legitima e mantém a dominação de determinados grupos (Van Dijk, 2005b: 53). Neste sentido, a despossessão e pilhagem das múltiplas identidades africanas e a consequente construção de um discurso assente, entre outros aspetos, em torno da ideia de homogeneidade cultural, reforçam indiscutivelmente o eurocentrismo enquanto paradigma de produção de conhecimento e de interpretação da realidade (Quijano, 2000: 552).

45A modernidade, ao construir narrativas que naturalizam e domesticam a dominação colonial, contribuiu incontornavelmente para o estabelecimento das relações de poder que caracterizam as sociedades atuais (Araújo e Maeso, 2010: 258). Desta forma, a exaltação do passado colonial português e as construções em torno das ideias de África e dos africanos, tão enfatizadas pelos média a propósito do Campeonato Mundial de Futebol da África do Sul, constituem, para usar as palavras de Trouillot (1995: 107), mais um capítulo da narrativa da dominação global.

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Ficha técnica

Título: Futebol, racismo e eurocentrismo. Os média portugueses na cobertura do Campeonato Mundial de Futebol na África do Sul

Outras informações: Revista Crítica de Ciências Sociais, Vol. 2012, No. 98, 103-124

Autor(es): Pedro Almeida

Decisão